quarta-feira, 2 de março de 2011

vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória

Benedicte Houart,
inimigo rumor




NINGUÉM SE LEMBRA

De quem ao coração vai buscar água
ninguém se lembra nem
de quem por tê-lo
pregado à pele mostra os seus pregos ferrugentos.

Luís Miguel Nava
Poesia Completa (1979-1994)
Rebentação
passeou pelos espelhos dos dias
suas clandestinas alegrias
que mal se reflectiram desertaram

Ruy Belo
Todos os Poemas I
Assírio & Alvim
‎"let's start a magazine
to hell with literature
we want something redblooded

lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene

but really clean
get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious

something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet

graced with guts and gutted
with grace"

squeeze your nuts and open your face

e. e. cummings,
No Thanks (1935)

BORBOLETA

A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
vontade de voar.

Jorge de Sousa Braga

ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.

Margarida Vale de Gato
Mulher ao Mar, Mariposa Azual, 2010




UM INSTANTE

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Ferreira Gullar,
Muitas Vozes (1999)

EPIGRAMA COM SUMO

Desfolhando o livro
como se descascasse a laranja,
as palavras caíam-lhe como gomos
por entre os lábios

Nuno Júdice

ÉPIGRAMME

Aimons, foutons, ce sont plaisirs
Qu´il ne faut pas que l´on sépare;
La jouissance et les désirs
Sont ce que l´âme a de plus rare.
D´un vit, d´un con, et de deux coeurs,
Naît un accord plein de douceurs,
Que les dévots blâment sans cause.
Amarillis, pensez-y-bien:
Aimer sans foutre est peu de chose
Foutre sans aimer ce n´est rien.

La Fontaine
via Poesia Incompleta




Dia
sem poesia
não é dia
é noite escura

Mas a poesia
é noite escura

Adília Lopes,
Caderno
&etc

A TERCEIRA COISA

Ela vinha.
tu falavas-lhe
até que a podias já tocar
E agora é a tua fala
quem lhe toca
de tão perto
que mais que ouvi-la
ela a sente.
Ela vem e chega.
Tu a descobres ou inventas,
mas decide-te.
Eu descubro-te e invento-te
e então eu oiço-a dizer-nos:

Eu sou a terceira coisa;

A personagem: o herói -
- a terceira pessoa.

Manuel Gusmão,
A Terceira Mão
Caminho
Eu não sou digno de nenhuma violência
Nem nenhuma violência pode ser
Suficientemente violenta para ser
digna de mim.

Eduardo White,
A Fuga e a Húmida Escrita do Amor
Texto Editores




BARTLEBY

- Bartleby!
Não houve resposta.
- Bartleby! - agora num tom mais forte.
- Bartleby! - berrei.
Tal qual um fantasma, afecto às leis da invocação mágica, à terceira chamada apareceu ele à entrada do seu ermitério.
- Vá à sala ao lado e diga ao Nippers que venha aqui.
- Preferia não o fazer - disse ele lenta e respeitosamente, e calmamente desapareceu.

Bartleby,
Herman Melville
Assírio & Alvim




26

O TABERNEIRO hoje está risonho - trouxeram-lhe pornografia fresquinha e ele gosta disso. O pior é a família, aburguesada, censória... Terá de escondê-la, como aos goles pela garrafa, de meia em meia hora.
É triste um adulto ter de esconder as mãos.

Miguel Martins,
O Taberneiro
Poesia Incompleta

BEIJO IX

Não me dês sempre um beijo húmido,
nem sussurros acompanhados de doces risos,
nem sempre tombes enleada,
no meu pescoço, desfalecida.
Também as doçuras têm a sua medida.
(...)

Jean Everaerts
Mil Vezes Mil Beijos
O Livro dos Beijos

CONDIÇÕES MÍNIMAS

Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas

semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha

e que só uso eu; a nós vontade
basta - e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,

aceitas? compreendes? aguentas?

no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro.

Margarida Vale do Gato,
Relâmpago magazine, 2010




Gostava de gostar de gostar.
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa-de-cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafísica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de ideias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...

Álvaro de Campos




The poet is a liar who always speaks the truth. 

Jean Cocteau
Breathe-in experience,
breathe-out poetry.

Muriel Rukeyser

HAPPINESS

So early it's still almost dark out.
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.

When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.

They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.

I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.

They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.

Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.

Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.

Raymond Carver