A Semicolcheia não ligava a se|mínima à pausa homónima
até vê-la seminua.
Ficou semi|confusa.
Perdeu a cabeça e vagueou pela casa apenas de haste e colchete.
Já não gorjeia, a Semicolcheia.
Perdeu o pio.
Pos-se de canto.
Senta-se à beira da redondez da Semibreve.
Sente-se redundante.
E languidamente semi|suspira por uma pausa que lhe devolva a voz
segunda-feira, 25 de abril de 2011
quinta-feira, 24 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
sábado, 5 de março de 2011
ARTE POÉTICA
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.
Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.
Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.
Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.
António Ramos Rosa
O poeta na rua, Quasi
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.
Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.
Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.
Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.
António Ramos Rosa
O poeta na rua, Quasi
MADISON AVENUE
Convém fugir das pessoas. Os amigos
têm palavras, gestos e olhares
com uma pedra dentro que faz mal.
Convém fugir das pessoas. A família
é a mão que segura a cabeça
para que esta debaixo de água permaneça.
E o amor é apenas essa palavra
que uma mulher nos atira para os braços.
Ao ir-se a mulher, seu nome dói.
É grato à alma estar-se isolado.
É grato ao corpo estar isolado.
Morrer é só isolar-se um pouco mais.
com uma pedra dentro que faz mal.
Convém fugir das pessoas. A família
é a mão que segura a cabeça
para que esta debaixo de água permaneça.
E o amor é apenas essa palavra
que uma mulher nos atira para os braços.
Ao ir-se a mulher, seu nome dói.
É grato à alma estar-se isolado.
É grato ao corpo estar isolado.
Morrer é só isolar-se um pouco mais.
J.M. Fonollosa
in Cidade do Homem: New York, Antígona
ONDE A POESIA...
Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia
António Ramos Rosa
O poeta na rua, selecção e prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia
António Ramos Rosa
O poeta na rua, selecção e prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi
sexta-feira, 4 de março de 2011
XVIII
quinta-feira, 3 de março de 2011
EM SEGUNDA FILA NA ESTANTE
Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge de Sousa Braga
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge de Sousa Braga
EM SEGUNDA FILA NA ESTANTE
Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge Sousa Braga
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge Sousa Braga
quarta-feira, 2 de março de 2011
EXÓNIMO PROCURA-SE
À procura de um exónimo...
Krystyna (In Polish)
Kristina (In Swedish, Czech, Russian and in German)
Kirsten (In Scandinavian)
Christine (In French and in English)
Christian (In English and in French)
Christina (In English)
Kristy (In English)
e ainda...
In Swedish: Kjerstin
In Scottish: Kirstin (F)
In Scandinavian and in German: Kristin
In Scandinavian: Stina
In Italian, Spanish, Portuguese and in Romanian: Cristina
In Italian: Cristiana
In Hungarian: Krisztina
In German, Scandinavian and in English: Christa
In German: Kristen
In German: Kerstin
In Finnish: Kirsi
In Finnish and Estonian: Kristiina
In English (Modern): Krystina
In English: Kristia
In Bulgarian: Hristina
Krystyna (In Polish)
Kristina (In Swedish, Czech, Russian and in German)
Kirsten (In Scandinavian)
Christine (In French and in English)
Christian (In English and in French)
Christina (In English)
Kristy (In English)
e ainda...
In Swedish: Kjerstin
In Scottish: Kirstin (F)
In Scandinavian and in German: Kristin
In Scandinavian: Stina
In Italian, Spanish, Portuguese and in Romanian: Cristina
In Italian: Cristiana
In Hungarian: Krisztina
In German, Scandinavian and in English: Christa
In German: Kristen
In German: Kerstin
In Finnish: Kirsi
In Finnish and Estonian: Kristiina
In English (Modern): Krystina
In English: Kristia
In Bulgarian: Hristina
ESTENDE A TUA MÃO
estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
Herberto Helder
in a faca não corta o fogo
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
Herberto Helder
in a faca não corta o fogo
"I like the word `decadent,’ All shimmering with purple and gold … it throws out the brilliance of flames and the gleam of precious stones. It is made up of carnal spirit and unhappy flesh and of all the violent splendors of the Lower Empire; it conjures up the paint of the courtesans, the sports of the circus, the breath of the tamers of animals, the bounding of wild beasts, the collapse among the flames of races exhausted by the power of feeling, to the invading sound of enemy trumpets. The decadence is Sardanapalus lighting the fire in the midst of his women, it is Seneca declaiming poetry as he opens his veins, it is Petronius masking his agony with flowers."
– Paul Verlaine
– Paul Verlaine
DIÁRIO
A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
Criatura 4
(Ana Salomé, p.13)
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
Criatura 4
(Ana Salomé, p.13)
AS PALAVRAS
Vira-as,
pega-as pelo rabo (chiai, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.
- Octavio Paz
(tradução de Albino M.)
pega-as pelo rabo (chiai, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.
- Octavio Paz
(tradução de Albino M.)
"A desventura máxima é a solidão. É tão verdade que o reconforto supremo - a religião - consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe - Deus. A oração é um desabafo, como com um amigo. A obra equivale à oração, porque nos põe em contacto com os que dela tirarão proveito. O problema da vida é, portanto, o seguinte: como romper anossa solidão, como comunicar com os outros. Assim se explica a existência do matrimónio, da paternidade, das amizades. Mas que a felicidade resida nisto, balelas! Porque se deva estar melhor comunicando com os outros do que só, é estranho. É talvez apenas uma ilusão: a maior parte do tempo, estamos muitíssimo bem sós. É agradável ter, de tempos a tempos, um odre em que nos possamos despejar e, em seguida, bebermo-nos a nós próprios: dado que pedimos aos outros apenas aquilo que já temos em nós. É um mistério o motivo por que não basta perscrutar e beber em nós próprios e seja preciso reavermo-nos por intermédio dos outros. (O sexo é um incidente: o que recebemos é momentâneo e casual; pretendemos algo de mais secreto e misterioso de que o sexo é apenas um sinal, um símbolo)."
Cesare Pavese
Cesare Pavese
SE EU PUDESSE
Se eu pudesse
ter-te em vez dos versos,
ou ter um verso
em vez de ti,
ou ter os olhos
como os de um gato
para perscrutar a noite
onde isso se decide.
Pedro Mexia
Avalanche, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2001
ter-te em vez dos versos,
ou ter um verso
em vez de ti,
ou ter os olhos
como os de um gato
para perscrutar a noite
onde isso se decide.
Pedro Mexia
Avalanche, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2001
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