quarta-feira, 2 de março de 2011

WALT WHITMAN

I am multitudes


DE OMBRO NA OMBREIRA

De ombro na ombreira vejo
no outro lado outro
ombro na ombreira

Entre ombros nas ombreiras
nenhum assombro:
ombros ombro a ombro
param ombro a ombreira

Quando tudo escombro
ainda todos seremos
ombro na ombreira

Alexandre O'Neill




LIGNIN

Why secondhand bookstores smell good

"Lignin, the stuff that prevents all trees from adopting the weeping habit, is a polymer made up of units that are closely related to vanillin. When made into paper and stored for years, it breaks down and smells good. Which is how divine providence has arranged for secondhand bookstores to smell like good quality vanilla absolute, subliminally stoking a hunger for knowledge in all of us."

HAKAWATI

“A hakawati is a teller of tales, myths, and fables (hekayât). A storyteller, an entertainer. A troubadour of sorts, someone who earns his keeps by beguiling an audience with yarns. Like the word “hekayeh” (story, fable, news), “hakawati” is derived from the Lebanese word “haki,” which means “talk” or ”conversation.” This suggests that in Lebanese the mere act of talking is story-telling.”

From ”The Hakawati” by Rabih Alameddine

FUCK YOU POEM # 45

Fuck you in slang and conventional English.
Fuck you in lost and neglected lingoes.
Fuck you hungry and sated; faded, pock marked and defaced.
Fuck you with orange rind, fennel and anchovy paste.
Fuck you with rosemary and thyme, and fried green olives on the side.
Fuck you humidly and icily.
Fuck you farsightedly and blindly.
Fuck you nude and draped in stolen finery.

Fuck you while cells divide wildly and birds trill.
Thank you for barring me from his bedside while he was ill.
Fuck you puce and chartreuse.
Fuck you postmodern and prehistoric.
Fuck you under the influence of opium, codeine, laudanum and paregoric.
Fuck every real and imagined country you fancied yourself princess of.
Fuck you on feast days and fast days, below and above.
Fuck you sleepless and shaking for nineteen nights running.
Fuck you ugly and fuck you stunning.

Fuck you shipwrecked on the barren island of your bed.
Fuck you marching in lockstep in the ranks of the dead.
Fuck you at low and high tide.
And fuck you astride
anyone who has the bad luck to fuck you, in dank hallways,
bathrooms, or kitchens.
Fuck you in gasps and whispered benedictions.

And fuck these curses, however heartfelt and true,
that bind me, till I forgive you, to you.

Amy Gerstler




“A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a benção eclesiástica e científica. Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim”.

João Guimarães Rosa



and what if wind were a window
what if I loved
like wind loves a window

Andrea Baker




ERA ASSIM:

era assim:

queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?
quanto me
queres?
quanto me
desejas?
ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...

Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades, Quimera, 2001





RÓI

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes

Carlito Azevedo
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2001




NOVA PASSANTE

1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)

2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz

3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)

Carlito Azevedo
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2001




NEM AÍ...

Indiferente
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho
se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema

Ferreira Gullar
Em Alguma Parte Alguma, 2009



OFF PRICE

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado

Ferreira Gullar