quinta-feira, 24 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
sábado, 5 de março de 2011
ARTE POÉTICA
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.
Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.
Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.
Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.
António Ramos Rosa
O poeta na rua, Quasi
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.
Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.
Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.
Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.
António Ramos Rosa
O poeta na rua, Quasi
MADISON AVENUE
Convém fugir das pessoas. Os amigos
têm palavras, gestos e olhares
com uma pedra dentro que faz mal.
Convém fugir das pessoas. A família
é a mão que segura a cabeça
para que esta debaixo de água permaneça.
E o amor é apenas essa palavra
que uma mulher nos atira para os braços.
Ao ir-se a mulher, seu nome dói.
É grato à alma estar-se isolado.
É grato ao corpo estar isolado.
Morrer é só isolar-se um pouco mais.
com uma pedra dentro que faz mal.
Convém fugir das pessoas. A família
é a mão que segura a cabeça
para que esta debaixo de água permaneça.
E o amor é apenas essa palavra
que uma mulher nos atira para os braços.
Ao ir-se a mulher, seu nome dói.
É grato à alma estar-se isolado.
É grato ao corpo estar isolado.
Morrer é só isolar-se um pouco mais.
J.M. Fonollosa
in Cidade do Homem: New York, Antígona
ONDE A POESIA...
Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia
António Ramos Rosa
O poeta na rua, selecção e prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia
António Ramos Rosa
O poeta na rua, selecção e prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi
sexta-feira, 4 de março de 2011
XVIII
quinta-feira, 3 de março de 2011
EM SEGUNDA FILA NA ESTANTE
Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge de Sousa Braga
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge de Sousa Braga
EM SEGUNDA FILA NA ESTANTE
Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge Sousa Braga
a ler um livro que te escapou
da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua
atenção ou alguém o arrumou em segunda fila na estante...
Tu não o sabes - como o poderias
saber? - mas esse livro descreve
como e quando vais morrer
Jorge Sousa Braga
quarta-feira, 2 de março de 2011
EXÓNIMO PROCURA-SE
À procura de um exónimo...
Krystyna (In Polish)
Kristina (In Swedish, Czech, Russian and in German)
Kirsten (In Scandinavian)
Christine (In French and in English)
Christian (In English and in French)
Christina (In English)
Kristy (In English)
e ainda...
In Swedish: Kjerstin
In Scottish: Kirstin (F)
In Scandinavian and in German: Kristin
In Scandinavian: Stina
In Italian, Spanish, Portuguese and in Romanian: Cristina
In Italian: Cristiana
In Hungarian: Krisztina
In German, Scandinavian and in English: Christa
In German: Kristen
In German: Kerstin
In Finnish: Kirsi
In Finnish and Estonian: Kristiina
In English (Modern): Krystina
In English: Kristia
In Bulgarian: Hristina
Krystyna (In Polish)
Kristina (In Swedish, Czech, Russian and in German)
Kirsten (In Scandinavian)
Christine (In French and in English)
Christian (In English and in French)
Christina (In English)
Kristy (In English)
e ainda...
In Swedish: Kjerstin
In Scottish: Kirstin (F)
In Scandinavian and in German: Kristin
In Scandinavian: Stina
In Italian, Spanish, Portuguese and in Romanian: Cristina
In Italian: Cristiana
In Hungarian: Krisztina
In German, Scandinavian and in English: Christa
In German: Kristen
In German: Kerstin
In Finnish: Kirsi
In Finnish and Estonian: Kristiina
In English (Modern): Krystina
In English: Kristia
In Bulgarian: Hristina
ESTENDE A TUA MÃO
estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
Herberto Helder
in a faca não corta o fogo
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
Herberto Helder
in a faca não corta o fogo
"I like the word `decadent,’ All shimmering with purple and gold … it throws out the brilliance of flames and the gleam of precious stones. It is made up of carnal spirit and unhappy flesh and of all the violent splendors of the Lower Empire; it conjures up the paint of the courtesans, the sports of the circus, the breath of the tamers of animals, the bounding of wild beasts, the collapse among the flames of races exhausted by the power of feeling, to the invading sound of enemy trumpets. The decadence is Sardanapalus lighting the fire in the midst of his women, it is Seneca declaiming poetry as he opens his veins, it is Petronius masking his agony with flowers."
– Paul Verlaine
– Paul Verlaine
DIÁRIO
A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
Criatura 4
(Ana Salomé, p.13)
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
Criatura 4
(Ana Salomé, p.13)
AS PALAVRAS
Vira-as,
pega-as pelo rabo (chiai, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.
- Octavio Paz
(tradução de Albino M.)
pega-as pelo rabo (chiai, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.
- Octavio Paz
(tradução de Albino M.)
"A desventura máxima é a solidão. É tão verdade que o reconforto supremo - a religião - consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe - Deus. A oração é um desabafo, como com um amigo. A obra equivale à oração, porque nos põe em contacto com os que dela tirarão proveito. O problema da vida é, portanto, o seguinte: como romper anossa solidão, como comunicar com os outros. Assim se explica a existência do matrimónio, da paternidade, das amizades. Mas que a felicidade resida nisto, balelas! Porque se deva estar melhor comunicando com os outros do que só, é estranho. É talvez apenas uma ilusão: a maior parte do tempo, estamos muitíssimo bem sós. É agradável ter, de tempos a tempos, um odre em que nos possamos despejar e, em seguida, bebermo-nos a nós próprios: dado que pedimos aos outros apenas aquilo que já temos em nós. É um mistério o motivo por que não basta perscrutar e beber em nós próprios e seja preciso reavermo-nos por intermédio dos outros. (O sexo é um incidente: o que recebemos é momentâneo e casual; pretendemos algo de mais secreto e misterioso de que o sexo é apenas um sinal, um símbolo)."
Cesare Pavese
Cesare Pavese
SE EU PUDESSE
Se eu pudesse
ter-te em vez dos versos,
ou ter um verso
em vez de ti,
ou ter os olhos
como os de um gato
para perscrutar a noite
onde isso se decide.
Pedro Mexia
Avalanche, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2001
ter-te em vez dos versos,
ou ter um verso
em vez de ti,
ou ter os olhos
como os de um gato
para perscrutar a noite
onde isso se decide.
Pedro Mexia
Avalanche, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2001
RILKE SHAKE
salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga
nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe
Angélica Freitas
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga
nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe
Angélica Freitas
vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória
Benedicte Houart,
inimigo rumor
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória
Benedicte Houart,
inimigo rumor
NINGUÉM SE LEMBRA
De quem ao coração vai buscar água
ninguém se lembra nem
de quem por tê-lo
pregado à pele mostra os seus pregos ferrugentos.
Luís Miguel Nava
Poesia Completa (1979-1994)
Rebentação
ninguém se lembra nem
de quem por tê-lo
pregado à pele mostra os seus pregos ferrugentos.
Luís Miguel Nava
Poesia Completa (1979-1994)
Rebentação
"let's start a magazine
to hell with literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean
get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace"
squeeze your nuts and open your face
e. e. cummings,
No Thanks (1935)
to hell with literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean
get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace"
squeeze your nuts and open your face
e. e. cummings,
No Thanks (1935)
ÉMULOS
Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
Margarida Vale de Gato
Mulher ao Mar, Mariposa Azual, 2010
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
Margarida Vale de Gato
Mulher ao Mar, Mariposa Azual, 2010
UM INSTANTE
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente
Ferreira Gullar,
Muitas Vozes (1999)
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente
Ferreira Gullar,
Muitas Vozes (1999)
EPIGRAMA COM SUMO
Desfolhando o livro
como se descascasse a laranja,
as palavras caíam-lhe como gomos
por entre os lábios
Nuno Júdice
como se descascasse a laranja,
as palavras caíam-lhe como gomos
por entre os lábios
Nuno Júdice
ÉPIGRAMME
Aimons, foutons, ce sont plaisirs
Qu´il ne faut pas que l´on sépare;
La jouissance et les désirs
Sont ce que l´âme a de plus rare.
D´un vit, d´un con, et de deux coeurs,
Naît un accord plein de douceurs,
Que les dévots blâment sans cause.
Amarillis, pensez-y-bien:
Aimer sans foutre est peu de chose
Foutre sans aimer ce n´est rien.
La Fontaine
via Poesia Incompleta
Qu´il ne faut pas que l´on sépare;
La jouissance et les désirs
Sont ce que l´âme a de plus rare.
D´un vit, d´un con, et de deux coeurs,
Naît un accord plein de douceurs,
Que les dévots blâment sans cause.
Amarillis, pensez-y-bien:
Aimer sans foutre est peu de chose
Foutre sans aimer ce n´est rien.
La Fontaine
via Poesia Incompleta
A TERCEIRA COISA
Ela vinha.
tu falavas-lhe
até que a podias já tocar
E agora é a tua fala
quem lhe toca
de tão perto
que mais que ouvi-la
ela a sente.
Ela vem e chega.
Tu a descobres ou inventas,
mas decide-te.
Eu descubro-te e invento-te
e então eu oiço-a dizer-nos:
Eu sou a terceira coisa;
A personagem: o herói -
- a terceira pessoa.
Manuel Gusmão,
A Terceira Mão
Caminho
tu falavas-lhe
até que a podias já tocar
E agora é a tua fala
quem lhe toca
de tão perto
que mais que ouvi-la
ela a sente.
Ela vem e chega.
Tu a descobres ou inventas,
mas decide-te.
Eu descubro-te e invento-te
e então eu oiço-a dizer-nos:
Eu sou a terceira coisa;
A personagem: o herói -
- a terceira pessoa.
Manuel Gusmão,
A Terceira Mão
Caminho
BARTLEBY
- Bartleby!
Não houve resposta.
- Bartleby! - agora num tom mais forte.
- Bartleby! - berrei.
Tal qual um fantasma, afecto às leis da invocação mágica, à terceira chamada apareceu ele à entrada do seu ermitério.
- Vá à sala ao lado e diga ao Nippers que venha aqui.
- Preferia não o fazer - disse ele lenta e respeitosamente, e calmamente desapareceu.
Bartleby,
Herman Melville
Assírio & Alvim
Não houve resposta.
- Bartleby! - agora num tom mais forte.
- Bartleby! - berrei.
Tal qual um fantasma, afecto às leis da invocação mágica, à terceira chamada apareceu ele à entrada do seu ermitério.
- Vá à sala ao lado e diga ao Nippers que venha aqui.
- Preferia não o fazer - disse ele lenta e respeitosamente, e calmamente desapareceu.
Bartleby,
Herman Melville
Assírio & Alvim
26
O TABERNEIRO hoje está risonho - trouxeram-lhe pornografia fresquinha e ele gosta disso. O pior é a família, aburguesada, censória... Terá de escondê-la, como aos goles pela garrafa, de meia em meia hora.
É triste um adulto ter de esconder as mãos.
Miguel Martins,
O Taberneiro
Poesia Incompleta
É triste um adulto ter de esconder as mãos.
Miguel Martins,
O Taberneiro
Poesia Incompleta
BEIJO IX
Não me dês sempre um beijo húmido,
nem sussurros acompanhados de doces risos,
nem sempre tombes enleada,
no meu pescoço, desfalecida.
Também as doçuras têm a sua medida.
(...)
Jean Everaerts
Mil Vezes Mil Beijos
O Livro dos Beijos
nem sussurros acompanhados de doces risos,
nem sempre tombes enleada,
no meu pescoço, desfalecida.
Também as doçuras têm a sua medida.
(...)
Jean Everaerts
Mil Vezes Mil Beijos
O Livro dos Beijos
CONDIÇÕES MÍNIMAS
Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas
semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha
e que só uso eu; a nós vontade
basta - e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,
aceitas? compreendes? aguentas?
no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro.
Margarida Vale do Gato,
Relâmpago magazine, 2010
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas
semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha
e que só uso eu; a nós vontade
basta - e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,
aceitas? compreendes? aguentas?
no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro.
Margarida Vale do Gato,
Relâmpago magazine, 2010
Gostava de gostar de gostar.
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa-de-cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafísica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de ideias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...
Álvaro de Campos
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa-de-cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafísica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de ideias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...
Álvaro de Campos
HAPPINESS
So early it's still almost dark out.
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.
When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.
They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.
I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.
They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.
Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.
Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.
Raymond Carver
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.
When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.
They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.
I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.
They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.
Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.
Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.
Raymond Carver
DE OMBRO NA OMBREIRA
De ombro na ombreira vejo
no outro lado outro
ombro na ombreira
Entre ombros nas ombreiras
nenhum assombro:
ombros ombro a ombro
param ombro a ombreira
Quando tudo escombro
ainda todos seremos
ombro na ombreira
Alexandre O'Neill
no outro lado outro
ombro na ombreira
Entre ombros nas ombreiras
nenhum assombro:
ombros ombro a ombro
param ombro a ombreira
Quando tudo escombro
ainda todos seremos
ombro na ombreira
Alexandre O'Neill
LIGNIN
Why secondhand bookstores smell good
"Lignin, the stuff that prevents all trees from adopting the weeping habit, is a polymer made up of units that are closely related to vanillin. When made into paper and stored for years, it breaks down and smells good. Which is how divine providence has arranged for secondhand bookstores to smell like good quality vanilla absolute, subliminally stoking a hunger for knowledge in all of us."
"Lignin, the stuff that prevents all trees from adopting the weeping habit, is a polymer made up of units that are closely related to vanillin. When made into paper and stored for years, it breaks down and smells good. Which is how divine providence has arranged for secondhand bookstores to smell like good quality vanilla absolute, subliminally stoking a hunger for knowledge in all of us."
HAKAWATI
“A hakawati is a teller of tales, myths, and fables (hekayât). A storyteller, an entertainer. A troubadour of sorts, someone who earns his keeps by beguiling an audience with yarns. Like the word “hekayeh” (story, fable, news), “hakawati” is derived from the Lebanese word “haki,” which means “talk” or ”conversation.” This suggests that in Lebanese the mere act of talking is story-telling.”
From ”The Hakawati” by Rabih Alameddine
From ”The Hakawati” by Rabih Alameddine
FUCK YOU POEM # 45
Fuck you in slang and conventional English.
Fuck you in lost and neglected lingoes.
Fuck you hungry and sated; faded, pock marked and defaced.
Fuck you with orange rind, fennel and anchovy paste.
Fuck you with rosemary and thyme, and fried green olives on the side.
Fuck you humidly and icily.
Fuck you farsightedly and blindly.
Fuck you nude and draped in stolen finery.
Fuck you while cells divide wildly and birds trill.
Thank you for barring me from his bedside while he was ill.
Fuck you puce and chartreuse.
Fuck you postmodern and prehistoric.
Fuck you under the influence of opium, codeine, laudanum and paregoric.
Fuck every real and imagined country you fancied yourself princess of.
Fuck you on feast days and fast days, below and above.
Fuck you sleepless and shaking for nineteen nights running.
Fuck you ugly and fuck you stunning.
Fuck you shipwrecked on the barren island of your bed.
Fuck you marching in lockstep in the ranks of the dead.
Fuck you at low and high tide.
And fuck you astride
anyone who has the bad luck to fuck you, in dank hallways,
bathrooms, or kitchens.
Fuck you in gasps and whispered benedictions.
And fuck these curses, however heartfelt and true,
that bind me, till I forgive you, to you.
Amy Gerstler
Fuck you in lost and neglected lingoes.
Fuck you hungry and sated; faded, pock marked and defaced.
Fuck you with orange rind, fennel and anchovy paste.
Fuck you with rosemary and thyme, and fried green olives on the side.
Fuck you humidly and icily.
Fuck you farsightedly and blindly.
Fuck you nude and draped in stolen finery.
Fuck you while cells divide wildly and birds trill.
Thank you for barring me from his bedside while he was ill.
Fuck you puce and chartreuse.
Fuck you postmodern and prehistoric.
Fuck you under the influence of opium, codeine, laudanum and paregoric.
Fuck every real and imagined country you fancied yourself princess of.
Fuck you on feast days and fast days, below and above.
Fuck you sleepless and shaking for nineteen nights running.
Fuck you ugly and fuck you stunning.
Fuck you shipwrecked on the barren island of your bed.
Fuck you marching in lockstep in the ranks of the dead.
Fuck you at low and high tide.
And fuck you astride
anyone who has the bad luck to fuck you, in dank hallways,
bathrooms, or kitchens.
Fuck you in gasps and whispered benedictions.
And fuck these curses, however heartfelt and true,
that bind me, till I forgive you, to you.
Amy Gerstler
ERA ASSIM:
era assim:
queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?
quanto me
queres?
quanto me
desejas?
ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...
Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades, Quimera, 2001
queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?
quanto me
queres?
quanto me
desejas?
ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...
Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades, Quimera, 2001
RÓI
Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama
imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido
se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
Carlito Azevedo
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2001
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama
imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido
se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
Carlito Azevedo
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2001
NOVA PASSANTE
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
Carlito Azevedo
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2001
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
Carlito Azevedo
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2001
NEM AÍ...
Indiferente
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho
se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema
Ferreira Gullar
Em Alguma Parte Alguma, 2009
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho
se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema
Ferreira Gullar
Em Alguma Parte Alguma, 2009
OFF PRICE
Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
Ferreira Gullar
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
Ferreira Gullar
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